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domingo, 27 de maio de 2012
Poema Antigo
"Está tudo planejado:
se amanhã o dia for cinzento,
se houver chuva
se houver vento,
ou se eu estiver cansado
dessa antiga melancolia
cinza fria
sobre as coisas
conhecidas pela casa
a mesa posta
e gasta
está tudo planejado
apago as luzes, no escuro
e abro o gás
de-fi-ni-ti-va-men-te
ou então
visto minhas calças vermelhas
e procuro uma festa
onde possa dançar rock
até cair"
da Revista Bravo! fev 2006
Caio Fernando Abreu
domingo, 29 de abril de 2012
Soneto
O
soneto é uma composição poética constituída por 14 versos,
distribuídos, segundo o modelo petrarquiano (também chamado "soneto
italiano"), em 2 quadras e 2 tercetos, as primeiras apresentando duas
ordens de rimas e estes últimos duas ou três ordens. O esquema rimático
mais freqüente é:
a b b a / a b b a / c d c / c d c
a b b a / a b b a / c d c / c d c
Tudo leva a crer que o soneto foi criado no século XIII, pelas mãos do poeta siciliano Giacomo de Lentino, em Palermo.
O primeiro grande nome ligado ao soneto é o de Dante,
devendo-se a outro mestre da poesia, Petrarca, a consolidação e a
difusão do modelo.
Em Portugal, o soneto teve como seu primeiro cultor o
poeta Sá de Miranda. Camões dedicou-se amplamente ao soneto, alcançando
com ele alguns dos mais altos momentos da literatura universal de todos
os tempos.
No Brasil seiscentista, Gregório de Matos empregou o
soneto tanto para a lírica sacra e amorosa quanto para a satírica.
Adiante, Cláudio Manuel da Costa firmou-se como sonetista de grande
valor, ajudando a fortalecer uma tradição que daria nomes como Olavo
Bilac e Cruz e Sousa, entre outros.
Num primeiro momento, os modernistas se voltaram contra o
soneto, atitude inserida num amplo programa de ruptura com a "fôrma"
das formas fixas e dos padrões poéticos tradicionais. No entanto, depois
de instalado o verso livre e conquistadas tantas outras liberdades nos
níveis da estruturação e do conteúdo, poetas como Manuel Bandeira e
Carlos Drummond de Andrade retornaram ao soneto.
Vinicius de Moraes consolidou-se como grande sonetista da moderna literatura brasileira e ajudou a popularizar a forma.
O soneto também pode ser estruturado em três quartetos e um dístico, sendo chamado então "soneto inglês".
Soneto da desesperança
De não poder viver sua esperança
Transformou-a em estátua e deu-lhe um nicho
Secreto, onde ao sabor do seu capricho
Fugisse a vê-la como uma criança.
Tão cauteloso fez-se em seus cuidados
De não mostrá-la ao mundo, que a queria
Que por zelo demais, ficaram um dia
Irremediavelmente separados.
Mas eram tais os seus ciúmes dela
Tão grande a dor de não poder vivê-la,
Que em desespero, resolveu-se: - Mato-a!
E foi assim que triste como um bicho
Uma noite subiu até o nicho
E abriu o coração diante da estátua.
Vinicius de Moraes
Transformou-a em estátua e deu-lhe um nicho
Secreto, onde ao sabor do seu capricho
Fugisse a vê-la como uma criança.
Tão cauteloso fez-se em seus cuidados
De não mostrá-la ao mundo, que a queria
Que por zelo demais, ficaram um dia
Irremediavelmente separados.
Mas eram tais os seus ciúmes dela
Tão grande a dor de não poder vivê-la,
Que em desespero, resolveu-se: - Mato-a!
E foi assim que triste como um bicho
Uma noite subiu até o nicho
E abriu o coração diante da estátua.
Vinicius de Moraes
Sossega Coração
- Sossega, coração! Não desesperes!
- Fernando Pessoa, 2-8-1933.
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres. Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fanatismo
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”
Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”
Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade
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